Primeiro encontro.
Era manhã chuvosa, eu entediado, atendia aos poucos clientes que esperavam mui pacientes para mandar suas cartas, ou pagar suas cobranças.
Enquanto trabalhava, para aliviar o tédio dispersava o olhar, olhava envolta para os rostos das pessoas ali presentes, e a comum paisagem ao redor... Foi numa dessas olhadelas que quando com o olhar direcionado ao rumo da porta, não pude deixar de notar uma jovem que acabava de entrar com o cabelo molhado, desajeitada, lutando com o guarda-chuva, tentando fecha-lo. Ela direcionou-se a fila de espera, e eu tentava não olhar mais, contudo sua beleza era estonteante e delicada, olhos castanhos que a luz tornava quase verdes, cabelos longos avermelhados e ondulados, lábios carnudos e rosados, pele clara com bochechas rosadas.
Algo caiu e chamou novamente minha atenção ao meu trabalho. Mesm
o com o pensamento “nela” continuei meu trabalho , um pouco mais distraído, mas continuei a trabalhar... a fila foi andando e finalmente a vez de a tende-la chegou:
- bom dia! Só um minutinho por favor.
E nesse “minutinho” ela revirou os bolsos do casaco até achar um envelope, eu paralisado até aí não disse nada.
- aqui! – exclamou ela, provavelmente falando sozinha, eu sem graça dei um sorriso cúmplice- quero enviar esta carta.
- Nossa esta carta vai para longe, a senhorita tem parentes na Itália?... perdoe-me a intromissão.
- Ah! esquece, não precisa se desculpar só não me chame de senhorita, prazer, Carolina, mas pode me chamar de Carol – estendeu inconvenientemente sua mão sobre o balcão...qual mesmo seu nome?... ah.. tenho parentes lá sim... na verdade a maior parte de minha família.
- Certo.. é... R$ 1,75... senh...Carol.
- Ah! sim ... obrigada, Tchau.
- !
E assim ela se foi, o seu sorriso maroto ficou marcado na minha memória. Mas eu tinha a certeza Que a veria novamente. E o dia foi passando eu tentando não pensar mais naquela mulher que me tirara a concentração.
E nisso passei a semana inteira esperando inutilmente que ela entrasse por aquela porta e conversasse comigo como fez naquela manhã chuvosa.
No Sábado como de costume fui a biblioteca municipal, sempre gostei muito de ir a biblioteca um ambiente muito agradável, uma bela construção com colunas gregas e ar de antigüidade por fora, por dentro mais aos fundos, estantes gigantescas de pura madeira escura cheias de livros, separados por seções, mais a frente dezenas de escrivaninhas com abajures de luz bem forte para leitura, e perto da entrada um balcão onde ficava a “mocinha” que registrava os livros que eram emprestados e ajudava pessoas que “perdiam-se” em meio aquele labirinto de estantes.
Mas curiosamente essa semana ela não estava lá, e graças a isso livros não estavam sendo emprestados (como me disse o segurança ali presente) resolvi ler um pouco por ali mesmo e retornar na semana seguinte para enfim pegar emprestado o livro que desejava, era um livro de Drummond com poesias lindas (adoro poesias).
E assim o fiz.